Para quem não sabe, a Berta Cardoso era uma enfermeira parteira que tinha o ciclo preparatório. Naquela época ter a 4º classe já era bom, ter o ciclo era fabuloso. Ao mesmo tempo conciliava uma saudosa carreira de muitos anos no fado, quando a Amália nem sequer sonhava cantar.
A Berta era uma mulher com muito bom humor: uma vez encontrei-a na "Viela", na altura a minha paragem obrigatória ao fim da noite antes de ir dormir. Na altura andava a tal rapariga nova a cantar por lá. Até cantava muito bem, mas era um bocado papagaia: aprendia pelos discos e fazia reproduções fiéis quando cantava, inclusive dos erros.
Havia o fado "Que Deus me Perdoa, que em certa parte diz "cantando dou brado e nada me dói". Mas a Amália comia um bocadinho as palavras e percebia-se "cantando dobrado e nada me dói". Claro que a menina dizia o mesmo erro, dando-lhe até alguma acentuação.
No final da noite a Berta decidiu chamá-la à atenção mas levou como resposta: "É assim que a dona Amália canta, portanto está bem!". Passados dois dias, Berta Cardoso voltou a chamar a menina á parte para corrigi-la no mesmo verso e ela voltou a mostrar a postura arrogante de papagaia de discos: "Fui para casa ouvir e no disco é assim que ela canta!"
Lembro-me de não conseguir conter o riso quando a Berta, que não tinha papas na língua, se saiu com a seguinte pérola: "Ai é? Então olhe menina, ele estendido e rijo já é difícil, quanto mais dobrado e mole... tenha juízo e pense por si mesma!".
Berta Cardoso - Fado antigo