De Colares a Vila Franca de Xira, as ribeiras transbordaram e uma lama assassina arrastou casas, estradas, animais e pessoas. Ainda hoje não se sabe ao certo o número de mortos. 5 dias após a tragédia, a censura deu ordens para parar a contagem, então nas 462 vítimas mortais, e abafar ou minimizar toda e qualquer a notícia sobre as consequências da catástrofe.
As mortes ocorreram sobretudo na área metropolitana, fora do núcleo central onde o planeamento urbano, as redes de esgotos e as condições de vida eram, apesar de tudo, mais favoráveis. Ainda assim, uma torrente de lama invadiu condutas do Aqueduto das Águas Livres, o que obrigou a interromper o abastecimento à capital. Muitos habitantes tiveram de recorrer aos antigos chafarizes, bicas e fontanários. Para além da falta de água, durante vários dias, houve falta de pão e de recolha de lixo. Nos arredores, acumulavam-se os cadáveres em putrefação, quer de animais e quer de vítimas humanas.
A dimensão da tragédia motivou uma resposta generalizada de ajuda por parte de diversos países, que o regime – isolado e alvo de críticas nas instâncias internacionais – recusou. Contra a vontade das autoridades, uma onda de solidariedade eclodiu por parte da população estudantil, de Lisboa, Porto e Coimbra que, por via da tragédia, acabou por tomar contacto com as terríveis condições de vida – e de morte – de muitos habitantes dos bairros periféricos da capital. Essa experiência, a par da repressão estudantil e da ameaça de recrutamento para a guerra colonial, concorreram para despertar uma consciência política que viria a ter consequência na revolução de 1974.
MiguelFrancoDeAndrade
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