Descubra a figura do Carnaval lisboeta que está na origem desta expressão popular
Desde há milénios que as populações assinalam a passagem da estação das trevas (o inverno) para a luz (primavera). No Hemisfério Norte, o Velho Entrudo e o Carnaval podem inscrever-se nessa tradição ancestral. Ao longo dos tempos, há sinais de que as sucessivas autoridades no poder – desde o Império Romano à Igreja Católica, do Antigo Regime às elites liberais no século XIX – tentaram domesticar as celebrações, que assumiam, quase sempre, um caráter disruptivo, e por vezes até violento.
Por todo a Europa do Norte, a partir do século XVI, a Reforma Protestante ajudou a dessacralizar velhos rituais católicos, na linha do que estudou o teórico russo Mikhail Bakhtin no seu livro "A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento”. Os corsos e desfiles podem encontrar paralelo, por exemplo, nas procissões religiosas que o Carnaval passou a ridicularizar. Mais tarde, os excessos das monarquias europeias do Antigo Regime passaram a ser um dos focos da sátira dos carnalescos (cujos ecos ainda se encontram em muitas das máscaras utilizadas hoje).
Em Lisboa, os festejos carnavelesco foram proibidos pelo intendente Pina Manique, nos tempos do Marquês de Pombal, bem como durante as Invasões Francesas, invocando o perigo de colocar em risco a ordem pública e os crimes cometidos pelos mascarados. O chamado “xexé” e a velha de lenço e capote simbolizavam essa nobreza caduca destronada pela revolução liberal. O período miguelista marca um novo fôlego das festividades, para logo a seguir principar o processo de civilização do Carnaval, em nome do progresso e de uma aproximação aos “habitos europeus” e à Belle Époque parisiense. Aos poucos, o povo passa, gradualmente, a ser espectador de uma festa onde antes era personagem principal.
MiguelFrancoDeAndrade
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